
Vivemos um tempo em que a profissão do ator está comprometida. Sendo um dos únicos meios possíveis para a rápida ascensão social, é procurada por muitos que não tem a vocação. Como é também uma excelente terapia para muitos males psicológicos, a doença é confundida com a vocação e lá vai parar, dentro das escolas, outra multidão que não tem nada a ver com ele, o teatro.
Hoje em dia, todo mundo quer ser ator. Isso é produto das novelas de TV. Parece tão fácil quando visto na telinha. E, por vezes, é fácil. Quando uma TV tem algum interesse especial em promover um ator, ele fica famoso rapidamente.
Verdade que, de modo igualmente veloz, cai no esquecimento quando cessa a máquina publicitária.
Todo mundo quer ser ator. Mas pouca gente pode ser ator. Ator de teatro, em particular. Não porque sejam necessários dotes especialíssimos, mas porque pouca gente ama o teatro a ponto de poder ser um ator.
O teatro é um templo onde exercitamos nossas poucas faculdades de deuses. Mágico por nascimento, lá somos coisas que não somos. Atores e espectadores, vivemos imaginariamente vidas que não são nossas. Mágica.
Os homens necessitam falar com outros. Trocar informações sobre o mistério. Os condicionamentos do comportamento social, na grande parte das vezes, impede assuntos profundos. É difícil falar sério na vida moderna. Se de um lado teatro é exemplo, de outro é tribuna. Lugar de falar sério. De depor no julgamento do criador. A força política do teatro, é portanto, enorme. Não faz revoluções, porque sua natureza não o faculta agir a curto prazo. Mas a prazo médio cunha as consciências. Imaginemos um marciano que subitamente se depara com um uma sala de espetáculos: por que se reuniram todos esses humanos? Para quê? Não foi para beber. Não foi para fazer sexo. Não estão lutando uns contra os outros, não é uma guerra! Que fazem então os humanos ali reunidos? Se o marciano me perguntasse, eu preferiria não responder. Eu o convidaria para assistir ao espetáculo. Ali está sendo contado algo digno de ser contado em Marte. Um encontro humano, tipicamente humano. Inventado no mínimo há quatro mil anos atrás: teatro.
Dizer que a profissão de ator é uma profissão como as outras é uma inverdade. Seu nível de sacralidade é maior.
A grande parte dos atores de hoje desconhecem ou não tem capacidade de entender essa sacralidade. Não deveriam, portanto, estar no teatro. Proponho uma escola de atores que, antes de formá-los tecnicamente, trate de sua educação espiritual.
Há atores que ficam em cena para exibir seu corpo ou sua personalidade. Ou para afirmar seu direito de estar em cena. Outros querem, acima disso, mostrar o valor humano da ação que representam. Querem participar não apenas de uma representação teatral, mas também de uma representação do mistério da vida. Que os últimos fiquem, e os primeiros que se vão.
Há atores que se dedicam a demonstrar aquilo que sentem ou pensam. Há outros que possuem uma fé no pensamento interior. Acreditam que basta a existência sincera de um pensamento ( ou sentimento ) para que ele se expresse. Os primeiros, são falsos atores, os segundos, verdadeiros.
Há pessoas que conseguem pensar muitas coisas ao mesmo tempo. Diz-se que têm rica vida interior. Para representar bem é preciso ter vários pensamentos ao mesmo tempo, isto é, aqueles que caracterizam o personagem, e servem não apenas a um único espetáculo, mas a muitos outros. O ator precisa ser uma pessoa de rica vida interior.
Os dispersos, os inconseqüentes, os superficiais também não devem fazer teatro. Não sabem, em sua vida particular, viver cada momento.Vivem em função de um futuro, ou poucas vezes, de um passado. No palco, para representar bem, é preciso viver cada momento.
O bom ator é aquele que pretende retirar de sua cena mais que um aplauso, mais que uma contribuição importante para o espetáculo, mais que uma interpretação perfeita.
Pretende retirar, de sua cena, uma vivência pessoal inesquecível. O bom ator é aquele que mantém o elo existente entre sua vida pessoal e sua atividade no palco.
A maioria dos atores que conheço é incapaz de contracenar. Fingem que jogam com o colega, mas na verdade estão sempre sozinhos. Raríssimos são aqueles que realmente contracenam. Por que para contracenar é preciso não ter medo, eis o motivo da raridade. Contracenar significa poder perder o controle, posto que abre a permissão para o impulso de outro. Contracenar só é possível quando você sabe que o outro lhe mobilizará, lhe fará voar como folha ao vendaval, mas não lhe enlouquecerá.
Contracenar só é possível quando o conteúdo é posto diante da forma. A forma é uma muralha. Contracenar significa assumir que o outro é diferente de nós. Que esse fato é a verdadeira fonte do enriquecimento. Fugindo por um momento às regras: essa assunção contém a negação da nossa fantasia de onisciência. O outro existe. Não somos deuses. Toda vez que um homem admite que não é Deus, coloca-se em estado de alta periculosidade.
São raros os atores que propõem a si mesmos emoções ou pensamentos que não podem entender. Emoções e sentimentos de ordem inconsciente. Toda grande interpretação repousa no inconsciente. A inteligência, toda a inteligência é indispensável, mas vale pouco. O ator tem valor se for louco.
Louco sob absoluto controle. E, de novo, são poucos os que não temem. Liberar a própria loucura faz bem à saúde e não enlouquece ninguém.
Proponho uma escola de atores na qual o aprendizado comece com o tipo acima de preceitos. Assimilado isso, pouco restará para aprender na arte do representar. Sem que isso seja absorvido, todo esforço será inútil, inadequado. Será o ator um artista? Na prática, hoje em dia, não, ou rarissimamente. Será possível para um ator ser um artista? Não sei. Talvez não, com desumanas oito sessões por semana. Talvez não, com a embriaguez de poder que a televisão oferece. A única função moderna de uma escola de teatro é criar um ator artista. A missão mais importante da nova geração de atores é resgatar a dignidade de sua profissão.
Domingos de Oliveira - Cineasta, ator, dramaturgo e Diretor de Teatro

Dia Mundial do Teatro, 27 de Março de 2009
Mensagem Internacional por Augusto Boal
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal
Le Monde Indica: http://casadoteatro.spaceblog.com.br/r3614/Monologos-reflexivos/
Belíssimo!
ResponderExcluirAssaz realidade.
Saudações